viernes, 30 de octubre de 2009

O incrível Springer

Noticias:
El sábado 7 de noviembre estaré en Brasil presentando mi libro "El increíble Springer", más precisamente en la Feria del Libro de Pelotas (Rio Grande do Sul). Para tal ocasión le pedí a Ignacio Fernández de Palleja una traducción de uno de los pasajes del cuento que da título al libro. No sólo lo hizo, sino que además trabajó en tiempo récord y con un cariño y una dedicación que me han conmovido; sobre todo, y aun más, observando el resultado final. Así que estás líneas que podrán leer a continuación van a ser leídas frente al público brasilero con mi pobre fonética en portugués pero con toda mi alegría de poder compartir una de mis historias con personas que, de no ser por la Literatura, no habría podido conocer jamás.
Muchísimas gracias, Ignacio, por tu delicadeza y pasión.



(...)
A cabeçada tinha me custado caro. A lingueta da bola, que soltara-se, arrancou-me a sobrancelha esquerda inteira e em poucos dias a ferida infectou-se. Estive quase duas semanas na cama, a maior parte do tempo em delírios de febre. Uma manhã, quando já estava quase recuperado, bateram a porta. Eu estava ainda na minha cama, mas tinham levado-a ao quarto da parte de diante da casa, que era cozinha, sala se jantar e sala de visitas, tudo junto. Minha mãe saiu a falar com alguém e deixou a porta aberta; então pude ver estacionado na calçada o Saab dos Springer. Depois Gastón atravessou o quarto até chegar à cama. Na parte alta, quase na união da parede com o teto, tinha uma janela pequena que servia para que desse lado entrasse a luz do sol no inverno. Tinha manhãs em que formava-se um tubo de luz brilhante e amarelada, e isso aconteceu nessa manhã em que Gastón foi me ver. Parecia a imagem dum quadro de igreja. A luz caia na sua cabeça e as formas do rosto apagavam-se, deixando visíveis apenas pontos cinzentos e inexpressivos do olhar. Era quase uma das visões dos meus dias de febre. Mas tudo isso mudou quando se aproximou um pouco mais. Na contraluz, reconheci lentamente uma pequena mancha-roxa no pômulo esquerdo. Gastón escondia esse lado do rosto, me olhava de lado e perguntava se estava melhor. Logo começou a sorrir, como dando por feito o que iria acontecer uns dias depois. Tinha coisas que não mudavam, e essa era uma delas.
Ferreira... O assunto era com ele.
Era novo na escola. O pai chegara de Montevidéu y abrira um posto de aluguel de bicicletas com oficina mecânica num dos caminhos que saiam rumo a Maldonado. No primeiro verão ganhou bastante dinheiro e comprou uma moto BMW em segunda mão com que ia procurar o filho na saída da escola. No começo aquilo era um furo. Muitos não voltavam às suas casas até que o pai não levava Ferreira. De repente ouvia-se do lado do porto uma sinfonia de explosões e a gente via o homem subindo a rua na moto. Era uma coisa esquisita, um monte de carne que se espalhava a ambos os lados do tanque, uns óculos gigantescos acima de um lenço interminável que rodeava o pescoço e quase toda a cara do homem. Seu filho, mal escutava de longe o barulho do motor, afastava-se do portão onde ficava apoiado sem falar com ninguém e atravessava a calçada olhando um pouco para cima, como se os olhares dos outros fossem grudar no seu rosto e ele tivesse que deixar a cabeça assim de reta para que eles pudessem escorregar-se e cair na rua antes que ele subisse. No encontro do pai e o filho produzia-se um fenômeno mais esquisito ainda. O homem rebolava os ombros e ajeitava-se na moto como se aquilo fosse uma cerimônia. Eram dois seres idênticos. Talvez o filho fosse um pouco menos gordo em proporção, mas seus olhos verdes e sinistros pareciam ter sido feitos na mesma oficina clandestina que os do seu pai. De certo jeito, quando o homem pegava essa atitude cerimoniosa no instante em que seu filho de ajeitava na parte de trás, parecia que estivesse levando por trás uma parte de si mesmo que deixara emprestada na escola quem sabe por que motivos. Passaram os dias e muitos sentiram-se intrigados por Ferreira e viraram seus amigos; outros, porém, entre os que estávamos Springer e eu, não tínhamos nenhum tipo de sentimento por ele que não fosse nojo. Diziam-se muitas coisas sobre Ferreira e seu filho. Uns diziam que o homem saíra pouco tempo atrás duma cadeia em Montevidéu por ter assassinado sua mulher depois de achá-la na cama com outro cara. Mas para outros a mulher fora obrigada a suicidar-se. A verdade era que o menino quase não tinha se criado com ele, e que de uns tempos para cá, até que seu pai reapareceu na vida pública, tinham tomado conta dele num lar especial. Isso talvez explicava por que apareceram do nada num verão e tentaram, principalmente o pai, obter reconhecimento na zona: possivelmente um jeito de que todos se concentrassem no presente. Se alguém pedia uma ajuda ao Ferreira, mesmo que fosse na madrugada e sob uma tormenta horrível, lá ia ele com a mesma tranqüilidade que tinha para fazer qualquer coisa que fizesse na manhã logo depois de levantar-se da cama. Quando cumprimentavam-no pela ajuda, sorria fechando um pouco os olhos, como se tudo fosse uma piada que nesse momento se dispusesse a explicar. Isso era uma coisa que muitos não gostavam mesmo.
Ferreira, o filho, era um ano mais velho do que nós, e estava no sexto grau. Ao tempo que eu estava na minha cama me recuperando da infecção, fez impossível a vida do Gastón nos recreios, dia após dia. Gastón nunca podia ter se defendido. Imagino Ferreira tensando seus músculos preparando-se para brigar, e Gastón encolhendo os ombros como se pudesse esconder a cabeça ali e sumir totalmente. Cada vez, para poupá-lo da surra, Ferreira exigia algo de grana, cualquer moeda que tivesse nos bolsos. Até que um dia Gastón percebeu que não tinha nada de grana e Ferreira não acreditou. Os amigos de Ferreira, na verdade quatro ou cinco desgraçados que queriam num dia remoto ser levados na BMW, fizeram um círculo deixando no centro seu líder e meu amigo. Foi um soco só, talvez mais macio do que Ferreira teria podido bater, mas suficiente para que Gastón caísse de costas e sofresse um corte na cabeça.
Parece que, ao outro dia, Springer e sua mulher acreditaram na versão da professora. Gastón corria pelo pátio, tropeçou com Ferreira e caiu. E Gastão não teve coragem para contradizer isso. Mas eu contei pro meu pai o que tinha acontecido de verdade. Primeiro riu e sacudiu a cabeça com o mesmo gesto de sempre que tinha para as coisas que ele não achava totalmente importantes ou perigosas.
-O que vocês tem de fazer –disse depois -é pegar esse gordinho e levar ele na floresta... onde não tenha ninguém, ninguém... Ali não vai mais se fazer de brabo porque não vai ter ninguém que olhe nele. Te planta na frente dele e vai de homem pra homem, um contra um... Com certeza ele se caga...
Essas palavras me deixaram eufórico.
Na escola, na segunda-feira seguinte, depois que a professora e os meus colegas me dessem as boas-vindas, e quando fazíamos um exercício, rasguei uma folha dum caderno sem fazer barulho e escrevi com letras grandes: TE FAZ DE MACHO COMIGO AGORA, GORDO CAGÃO. TE ESPERO NO BALDIO LA PASTORA. Quando chegou a hora do recreio chamei uma colega que era irmã de um dos amigos de Ferreira e lhe dei o papel.
-Fala pra ele que dé pro gordo....
A menina correu e dois ou três minutos depois voltou com outro papel, que dizia: TU VAI VE VIADO.
Eu juro.
E assim foram as coisas. Duas horas depois saíamos da escola e caminhávamos até o baldio de La Pastora, muito perto do campo de futebol. De um lado estávamos apenas Gastón e eu. Do outro lado estavam Ferreira, o irmão da minha colega e mais três. Tinha ainda outros guris e gurias, mas estavam parados distantes, como se não decidissem a ir embora logo, chamar algum adulto ou entrar na encrenca. Porém, era difícil que nos vissem desde a rua. O baldio estava quase fechado por um muro que alguém construira com uma intenção já perdida no tempo. Atrás sempre tinha grama cuidada, galhos podados, garrafas de leite cheias de mofo e roupa velha. Ferreira começou a caminhar e encostou-se ao muro. Os que estavam com ele fizeram o mesmo. Gastón e eu ficamos a uns dez metros, talvez menos. De improviso, do lado do caminho, retumbou o motor da BMW. O pai voltava só a sua casa, fazendo-se perguntas ou mastigando xingamentos por causa do filho ausente. Mas o filho ajeitava-se encostado no muro, evitando qualquer movimento que fizesse sentir aos outros o peso de uma possibilidade longínqua.
-Só vocês? –perguntou de repente levantando a cabeça-. Vejam que somos cinco... Vamos dar uma baita surra em vocês.
Então lembrei da frase do meu pai, palavra por palavra.
-Quem te chamou pra briga fui eu, e falei pra tu mesmo... E cá não quero... Vamos pra floresta, de homem pra homem...
Ferreira fez um gesto como de disgosto e levantou-se pegando impulso no muro.
-Vamo, então... –disse.
Apartei-me de Gastón e segui-lo de perto. Uns metros depois começava uma encosta de areia pela qual se ia à floresta. Do outro lado estavão os pinheiros e a luz do entardecer batia contra os primeiros troncos fazendo-los avermelhados. Nos fundos estava tudo escuro. Parecia que dia já tivesse acabado naquele local. Quando cheguei ao ponto mais alto da encosta com o olhar fixo nas costas e os ombros de Ferreira que sacodiam-se a um lado e outro pelo trabalho de caminhar na areia irregular, me virei e fitei Gastón. Estava parado numa ponta do muro com as mãos nos bolsos. Não conseguia perceber totalmente qué cara ele tinha, via-o de cima demais e a franja escondia-lhe os olhos. Os outros estavam muito perto, ficaram sentados falando entre eles.
Então apressei-me a baixar pela encosta porque Ferreira ia bastante adiantado. A floresta fechava-se vinte metros adiante, os pinheiros arquejavam-se uns sobre os outros nas copas e a luz virava esquisita. Eu me aproximava mais e mais do Ferreira e via-o com as mãos soltas aos lados, balançando-se com nervosismo.
-Então? Aqui tu gosta, bicha?
Não respondi. Achei que não era preciso. Só esperava o momento em que produzia-se um piscar de olhos e já estávamos os dois segurados um do outro. Esperava essa sensação em que tudo ficava preto e as coisas aconteciam como em um sonho ou um filme acelerado e as coisas aconteciam na maior velocidade com pessoas que paravam ali a cada instante. Mas não acontecia. Ferreira levantou os punhos e avançou. Consegui evitar o primeiro soco e acertar um meio fraco na orelha, mas com o segundo não tive a mesma sorte. Bateu-me em cheio no estômago. E quando contorci-me procurando com uma mão o local do murro, nesse segundo ou menos em que esquecia Ferreira para concentrar-me na minha dor, chegou o terceiro soco, de baixo para cima e direta entre os dentes e o nariz. Caí de costas e logo Ferreira aproveitou para dar duas pegadas rápidas e sentar em cima de mim. Sentia um líquido morno que baixava-me entre os dentes e que não podia engolir, mas em momento algum acreditei que aquilo fosse meu sangue.
-Então, veado? Quem é o macho agora?...
Botou um dedo atrás de cada orelha, onde nasce a queixada, e começou a afundá-los até que, lentamente, ouvi-me gritando e pedindo perdão. E então sim, tudo escureceu-se como acontecia antes das outras brigas.
Isso foi uma parte de tudo o que nos aconteceu com Ferreira. O restante vem mais adiante, um ano depois. Claro que na época Gastón já vai ser definitivamente o incrível Springer.

18 comentarios:

fernanda dijo...

Wooowww! Felicitaciones a los dos. Qué buena noticia. Debe de ser muy emocionante ver un texto propio en otra lengua, mucho más tener la oportunidad de estar ahí y ver la reacción de la gente. Qué linda experiencia, que la disfrutes.

F

Damián González Bertolino dijo...

Muchísimas gracias, Fernanda...
Creo que las caras de las personas cuando yo entre a leer en portugués va a ser algo digno de recordar para reírnos un buen rato después...
Abrazos.

Fabián Muniz Umpiérrez dijo...

¡Me sumo a las felicitaciones!
A vos por la presentación de tu obra en Brasil y a Nacho por su "increíble" traducción.

Abrazo!!!!
A.A

Fabián Muniz Umpiérrez dijo...

(Dam, publicamos al mismo tiempo. Esto sólo me había pasado una vez con LDL, jaaa)

Damián González Bertolino dijo...

Ja, es cierto..
Bueno, gracias a vos también.
Un abrazo.

Martín Bentancor dijo...

Celebro la buena nueva de la presentación y esa impecable traducción de Fernández de Palleja. No se aplica acá aquello de "traductor traidor", al parecer.
Un saludo a ambos y a pelotear ese libro en Pelotas (esto pudo ser fácilmente obviado)
Abrazo,
Martín Bentancor

F. de P. dijo...

Estimados: Gracias por la exageración, que deberá ser refrendada para su promulgación por algún brasilero.
Y cómo me gustaría volver a la "Feira do Livro" en la Plaza Coronel Pedro Osório, a la RádioCom, a lo de Aldyr... que saudades!

Lola dijo...

Qué buena noticia!! Te imagino leyendo por primera vez ese texto y me emociono!!Felicitaciones por la presentación de tu libro en Brasil y a Nacho por la traducción. Disfruta. Abrazo fuerte.

gloriabertolino@hotmail.com dijo...

gloriabertolino@hotmail.com dijo...
Hola Felicidades Dami es un orgulloso saber que vas a presentar tu libro en un nuevo mercado , como me gustaria poder estar ahi en ese momento y escuchar tu portugues que estoy segura te va a salir muy bien , saludos para Nacho quedo muy buena tu traduccion, besos para los dos dede Hampton New jersey,bye, bye

31 octubre

Leonardo dijo...

Cuidado, brazucas, les estamos mandando un peludo que va dispuesto a armar desastre. Y más vale que nos lo devuelvan sano y salvo, o los invadimos y a la mierda macaco. Quedan avisados.

Damián González Bertolino dijo...

Gracias, martín, Ignacio, Rosa, mamá y Leonardo... Gracias por darme apoyo...
Un fuerte abrazo.

NACHO dijo...

Bueno Damián! Muchas felicitaciones desde Buenos Aires, para vos y para el amigo NFdeP!
Me da una gran alegría poder leer al Springer en portugués.
Espero que ando todo sobre rieles por allí.
Va un gran abrazo, hermano...
Nacho Di Tullio

Ricardo Petrucci Souto dijo...

Olá, Damián

Espero que tenhas gostado de Pelotas e de nossa gente.

O assado do "Mercado de Puerto" daqui ficou a teu gosto?

Fica tranquilo porque todos entendemos bem o teu português.

O ritmo da tua narrativa é excelente!

Um grande abraço.

F. de P. dijo...

Petrucci... Acho que te conheço... Por acaso você não deu uma palestra sobre futebol há três anos, junto a um ex goleiro e treinador na Bibliotheca Pública? Aquilo acabou em "Mercado del Puerto" e eu até fui entrevistado na RádioCom... Que saudades...

Ricardo Petrucci Souto dijo...

Olá,
Ignacio

Fui eu mesmo que fiz o que tu chamas de palestra sobre futebol uruguaio na Bibliotheca.
Pra meu espanto o pessoal gostou, tchê!
Tu eras aquele "flaco rubio" que chegou de repente e disse não entender bem por que os brasileiros gostavam tanto do Uruguai, certo?
Podes ouvir a Rádio Com pelo www.radiocom.org.br/.
Um grande abraço.

F. de P. dijo...

Magro sim, mas careca... Agora estou pensando e acho que foi em 2005 que eu estive ali. Quando eu cheguei, falei que levava comigo um livro de Aldyr, pedi que me recomendassem um hotel que me dessem um mate. Depois, um jaguarense que tinha o programa da manhã na RádioCom pediu-me que falasse em português, pelo qual fui aplaudido pela segunda vez. Dessa vez, o Brasil acabara de ficar fora da copa, a vez que Roberto Carlos arrumava as meias.

Ricardo Petrucci Souto dijo...

Achei que "rubio" era loiro (e careca "pelado")!
O jaguarense é o Fernando Soares, grande conhecedor de música latino-americana.
E o dono do blog, já chegou em casa?

F. de P. dijo...

Chegou sim. Só que ele está se recuperando... Abraço.